domingo, 30 de outubro de 2011

Norbert Elias – Mozart, sociologia de um gênio

RESUMO

O presente trabalho tem como principal objetivo analisar a teoria do sociólogo Norbert Elias que serviu para alargar o campo dos estudos sociológicos voltados aos processos de interação humana no âmbito da sociedade. A teoria sociológica formulada por Elias pode ser considerada uma abordagem de caráter crítico, cujos conceitos fundamentais foram construídos a partir da identificação das deficiências e limitações de perspectivas teóricas consideradas clássicas pelas ciências sociais. Para entendermos essa “nova proposta” analisaremos as teorias de Elias a respeito do caso de um indivíduo singular que ultrapassa as barreiras de sua época a fim de modificar a história – Wolfgang Amadeus Mozart.


Palavras-chave: Norbert Elias, Sociologia, Indivíduo, Sociedade, Mozart.



INTRODUÇÃO

A acolhida da obra de Norbert Elias foi perturbada pelas dificuldades de uma existência tomada pelas provações coletivas de sua época. Elias nasceu em Breslau, Alemanha, em 22 de junho de 1897 em uma família judia. Fora convocado para a primeira guerra mundial ainda muito jovem e obrigado a exilar-se durante a segunda guerra sob imensa pobreza e enlutado pela morte trágica dos pais.

O grande livro de Elias sobre o “processo de civilização”, publicado na Basiléia em 1939, passou pela história quase despercebido devido aos acontecimentos da época. A obra, escrita em alemão, fora traduzida para o inglês em 1978 e para o português em 1990. O primeiro volume, com o título “A civilização dos costumes”, é dedicado à evolução dos costumes na sociedade ocidental a partir da Renascença; o segundo volume, com o título “A dinâmica do ocidente”, propõe uma análise histórica e uma síntese antropológica dos fenômenos observados.

Outro problema de publicação era a própria natureza de sua obra que, à frente do seu tempo, era original e diversificada além de ligar-se a outras disciplinas ultrapassando as fronteiras habituais da sociologia para englobar a História, a Psicologia, Antropologia, Ciência Política, entre outras.
“Convém, antes de tudo, que coloquemos em evidência a originalidade de um pensamento que soube inventar não somente novos objetos, mas também novas maneiras de abordar a pesquisa sociológica; sua coerência, que faz, em sua obra, o cruzamento de um pequeno número de temas através da variedade destes objetos; e sua modernidade, que nos dias de hoje, após mais de meio século, lhe permite inspirar ou guiar múltiplas direções de pesquisa. Deste modo, deveria ser possível compreender o que ele queria dizer quando afirmava buscar uma ‘nova revolução do pensamento e da sensibilidade’.” (Heinich,01:p.8)

A ciência social, no decorrer de sua história, viu-se dividida em dois princípios metodológicos que se opõem e disputam o predomínio, são eles, Holismo e Individualismo.
[1]
“’Do que é individual, não se pode falar.’ Esta frase - que, segundo Ginzburg¹ resume o espírito da ciência galileana - influenciou o conjunto de modelos científicos preocupados em construir leis gerais, provocando inclusive águas turbulentas no barco em que navegam as ciências sociais. Falar, portanto, da exceção, do individual ou da raridade, constitui um dos grandes desafios enfrentado pelas ciências sociais, em sua tarefa cotidiana de articular o geral e o particular.” (Irlys Alencar Firmo Barreira²).

O holismo metodológico é muito bem representado pelas idéias de Durkheim, onde existe uma oposição entre indivíduo e sociedade, em que domina a primazia da sociedade sobre o indivíduo. Para Durkheim os fatos sociais são elementos exteriores que exercem coerção sobre o indivíduo. Porém, se em Durkheim a sociologia é a ciência dos fatos sociais, em Weber ela é a ciência da ação social. No individualismo metodológico de Max Weber estão presentes dois termos que o permitem compreender: sujeito e sentido – nessa relação, é o agente social que dá sentido à sua ação. A finalidade é um atributo do indivíduo.

Elias tenta esquivar-se dessa paralisante dicotomia entre os termos e estabelecer uma interação entre eles. Em vez de tomar tais termos como substâncias isoladas, Elias considera as suas relações e funções, o que implica tomar os termos em contínua interação. Ele deixa claro que a sociedade é formada por indivíduos e estes são constituintes da sociedade – não sendo possível considerar os termos separadamente. Afirma ele que não há sociedade sem indivíduos e, não há indivíduos sem sociedade. Portanto, seria um “absurdo” tomar os termos de outro modo que não aquele da cumplicidade. Sendo assim, nos processos indivíduo x sociedade; condição x possibilidades; vontade x parâmetros sociais, um constrói o outro e essas dicotomias constituem aspectos diferentes do mesmo ser humano.

Através dessas observações, Elias percebe uma marcante desigualdade nas relações humanas resultante d[2]e diferentes graus de dependência entre indivíduos e grupos, a partir dos quais quem é menos dependente domina. Ao examinar essa relação questiona o papel do indivíduo e suas possibilidades de influir na mudança social. Essas relações também dependem do momento histórico e da sociedade em questão, portanto, a evolução histórica da sociedade não deve ser observada somente no nível de sociogênese – coletivo, ou de psicogênese – individual. A partir dessa teoria Elias cria a Lei fundamental sociogenética – a partir dessa lei, Norbert Elias procura entender as relações entre a sociedade e o individuo dotado de liberdade, vontade e motivação, buscando romper com determinismos e causalidades mecânicas.

O livro de Norbert Elias, Mozart - Sociologia de um gênio traz instigantes idéias sobre as articulações complexas entre o individual e o social. A vida de Mozart é analisada no livro como expressão de valores de uma sociedade da corte, que acolhia de forma contraditória músicos burgueses, provocando conflitos e limitações que refletiam a tensão entre os círculos do establishment cortesão e os grupos burgueses outsiders.

“A vida de Mozart ilustra nitidamente a situação de grupos burgueses outsiders numa economia dominada pela aristocracia de corte, num tempo em que o equilíbrio de forças ainda era muito favorável ao establishment cortesão, mas não a ponto de suprimir todas as expressões de protesto, ainda que apenas na arena, politicamente menos perigosa, da cultura”. (N.E. p.16)

Dentro de uma perspectiva sociológica, fundamentada no pensamento de Elias, Heinich explica a questão do autocontrole das emoções, e sua aplicação à história das ciências, destacando a oposição entre engajamento e distanciamento, em seguida, a passagem da violência ao controle das tensões e seu efeito sobre as distâncias hierárquicas, que Elias tratou particularmente em uma reflexão original sobre o esporte, a passagem da exteriorização à interiorização dos afetos, visível tanto na história do pudor quanto na relação com a morte, e enfim, o caso de Mozart que nos permite um estudo mais apurado, visto que, trata-se da análise dessas teorias em um caso individual.


DESENVOLVIMENTO

O grande livro de Norbert Elias, “O processo de civilização”, apresenta-se em dois volumes: “A civilização dos costumes” e “A dinâmica do ocidente”. Sendo que o primeiro é dedicado à evolução dos costumes na sociedade ocidental, isto é, traça os acontecimentos históricos dos hábitos europeus; o segundo volume aborda as causas desses processos.

“A civilização dos costumes” tem como objeto de investigação sociológica, um assunto aparentemente fútil: as maneiras de gerenciar as funções corporais, maneiras de se comportar à mesa, de assoar o nariz, de cuspir, de urinar, de lavar-se, etc. Durante o processo de civilização, os homens reprimem tudo o que sentem em si mesmos, como se estivessem ligados à sua natureza animal. Esta constatação permitiu, inicialmente, que Elias mostrasse que estas funções chamadas de “naturais” são inteiramente modeladas pelo contexto histórico e social.

De acordo com a “Lei fundamental sociogenética” elaborada por Elias, cada indivíduo deve percorrer por sua própria conta, de forma abreviada, o processo de civilização que a sociedade percorreu em seu conjunto, porque a criança não nasce civilizada.

Essa evolução deve ser compreendida como um processo de longa duração. Não se trata de um fenômeno perceptível em escala individual, mas na escala coletiva de um movimento de sociedade ao longo de vários séculos. Após descrever longamente as modalidades do fenômeno, Elias se interroga sobre suas causas, através de uma análise rigorosa dos testemunhos históricos.
Ele explica que é a dinâmica das relações sociais entre inferiores e superiores que pode dar conta desta evolução. Historicamente, as novas boas maneiras, mais “civilizadas”, foram inicialmente elaboradas pela aristocracia da corte, em seguida foram transmitidas às outras categorias sociais.
Leopold Mozart buscou adaptar os comportamentos e sentimentos de seu filho (Wolfgang Mozart) ao padrão da corte na tentativa de fazer dele um cavalheiro ao estilo cortesão. Desde cedo aprendeu a se vestir de acordo com os ditames de moda da corte, inclusive utilizando peruca. Mozart gostava de se vestir e comportar-se à maneira da corte, mas, não possuía aptidão para aquelas habilidades. Tinha consciência de que, para ser visto com superioridade deveria seguir tais ditames, e é impossível que não tenha sentido o desejo de provar que era realmente um cavalheiro. Pode-se imaginar que ele, como gozador que era, começou a debochar dos costumes da corte. Mozart continuou tento um comportamento totalmente franco e direto.
Uma forma prática de aplicar o conhecimento sociológico seria em um projeto humanista a fim de tornar as inter-relações e a cooperação entre os homens, algo que realmente faça parte da realidade humana.

“É somente neste momento que os homens poderão afirmar com um pouco mais de razão, que eles são ‘civilizados’. Até então, eles estão, na melhor das hipóteses, engajados no processo da civilização. Não se deve deixar de repetir-lhes que a civilização ainda não está terminada. Ela está se refazendo.” (DO, p324)

O engajamento e o distanciamento se constituem como uma forma de interação do indivíduo com o mundo a sua volta. A noção de engajamento mede o grau em que uma pessoa está afetada – interessada, emocionada, tocada – pelo mundo exterior, quer este mundo se manifeste sob forma de um ser vivo, de um objeto, de um fenômeno social ou natural. Já o distanciamento favorece a reflexão que permite uma ação mais adaptada, ao passo que um alto grau de emoção produz um efeito de paralisia das capacidades de discernimento intelectual e de reação prática.
É o autocontrole das emoções que permite ao indivíduo o controle (relativo) do mundo exterior.


E por sua vez, o aumento do controle (intelectual e prático) diminui a carga emocional colocando-a a distância, de maneira que o autocontrole cresce e, com ele, o domínio do perigo. Fazendo referência ao caso de Mozart, que vivia em constante estado de solidão, desespero e desamor, constata-se que se ele tivesse o autocontrole de suas emoções ele poderia ter adiado a sua morte prematura, porém, sua doença foi se agravando na medida em que ele agia como se desistisse de si mesmo, pelo fato de não ter mais o controle do vazio que sentia.

Os afetos têm uma importância fundamental nas relações entre os seres humanos, sendo eles, muitas vezes, responsáveis por minimizar o grau de expressão da violência. A questão dos afetos pode também ser encarada não mais em função do grau de engajamento ou de implicação dos sujeitos nos objetos do mundo exterior, mas em função do grau de expressão da violência em relação ao outro, quer ela se manifeste em forma de agressão imediata e descontrolada, quer ela seja contida, reprimida, recalcada e até mesmo sublimada pelo próprio sujeito.
Elias produziu um livro a partir das mudanças do equilíbrio entre os sexos baseando-se no exemplo da história romana, porém, o manuscrito foi, infelizmente, destruído em 1971 pelo excesso de zelo de uma faxineira.

O texto apresentava a situação de discriminação vivenciada pelas mulheres em nossas sociedades, principalmente, na relação com a propriedade ou adultério, e a ausência de regras que expliquem sua inferioridade, bem como, as condutas sociais que os homens devem ter em relação às mulheres, como por exemplo, abrir uma porta, levantar da cadeira para uma mulher sentar, etc.

O habitus é o nome que se dá a incorporação individual das normas veiculadas pelo grupo de vinculação; e, por outro lado, a questão do enfraquecimento histórico das desigualdades entre os sexos, que se tornam mais sensíveis, visíveis, e estigmatizadas, na medida em que são cada vez menos marcadas nos fatos e menos aceita nas consciências.
As mulheres passaram por muitas dificuldades, por serem tratadas como algo sem valor nenhum, na sua própria casa a mulher era submissa a um homem, ao seu pai, este, por sua vez, era quem escolhia um marido para elas, no entanto, quando casavam não tinham direito nenhum a educação, direito de pedir o divórcio, bem como, de manter relações extraconjugais. O sinal mais flagrante desta inferioridade era o fato de que nenhum nome lhes era atribuído: elas usavam o nome de sua gens – por exemplo, Cláudia, quando pertenciam à casa de Claudius. Com relação a essa desigualdade no matrimônio, pode-se afirmar que, no caso de Mozart, acontecia diferente, sua mulher não era considerada alguém sem valor ou sem opiniões diante do marido, pelo contrário, ele a amava e a tratava com muito amor, embora ela não retribuísse. Naquela época, as moças já não eram tão submissas aos seus pais, elas tinham direito de escolha em alguns aspectos.

Interessando-se pela “busca do prazer no lazer”, e depois, pelo “lazer no espectro do tempo livre”, muitos autores, inclusive Elias, focalizam inicialmente a busca de tensão enquanto elemento central do prazer: podemos vê-lo no caso de uma partida de futebol, que provoca uma “excitação agradável” e “fortes emoções”. Talvez, se Mozart tivesse se dedicado a prática de esportes ou a busca de outro tipo de lazer, ele teria a chance de liberar um pouco mais a emoções fortes que carregava dentro de si e que lhe faziam mal, pois se tratavam de sentimentos negativos, provocados pela falta de atenção e reconhecimento da família e do público. Para ele, o esporte seria uma maneira de descarregar as energias e de reconhecer que a vida dele não se resumia apenas ao reconhecimento de seu talento diante da corte e ao amor de sua esposa.

Existe uma concepção universalizante, que reconhece a existência de “esportes” em todas as culturas, antigas ou contemporâneas, opõe-se a constatação de uma descontinuidade que define o esporte a partir das características que o distinguem de outras formas de lazer e de entretenimento, anteriores ou concorrentes.

Assim se implanta, no nível individual tanto quanto no coletivo, uma “liberação controlada das emoções” que está na base da função do esporte na civilização ocidental: compreende-se aí o papel da busca das tensões no lazer, que permitem liberar afetos, e, sobretudo, impulsos agressivos, em um contexto tal, que a violência se encontra contida pelas regras em um espaço/tempo limitado. O esporte aparece assim, como o lugar por excelência desta evolução “civilizadora”, que transforma em autocontrole os constrangimentos exteriores que visam represar a violência.

Eric Dunning foi fiel a interpretação de Elias, quando afirmou que é preciso distinguir a prática do esporte em si, tomada na tensão entre controle e liberação dos impulsos agressivos, e as formas de projeção por identificação sobre as equipes, que re-injetam maciçamente, junto aos espectadores, as diferenças sociais ou nacionais, colocadas entre parênteses no próprio jogo.

A interiorização progressiva dos impulsos, das emoções, dos constrangimentos está no centro do
processo de civilização, quer se trate dos costumes, da etiqueta da corte, da relação com o saber ou do esporte. A reticência à exteriorização, a mostrar, a manifestar – e até mesmo a recusa em fazê-lo, a vergonha de ser obrigado a isto ou a aversão em ver o outro comprazer-se com tal situação – pode ser interpretada de diferentes maneiras: positivamente, é a aprovação moral de todas as formas de pudor; negativamente, é a condenação moral da dissimulação.
Em um de seus artigos, Elias propunha uma análise mais geral das formas e das funções do pudor – esta propensão para dissimular aos olhares do outro a sua própria intimidade, quer ela seja física ou moral.

Antigamente os trajes de banhos possuíam mais tecidos, principalmente o das mulheres, hoje, nas praias, pessoas se permitem mostrar-se nuas a estrangeiros sem causar repercussão alguma, porque o autocontrole dos impulsos atingiu um ponto tal que a “civilização” do olhar substitui, por dizer assim, a vestimenta, enquanto proteção da intimidade. Na sociedade em que vivemos, o grau de sensibilidade varia, o que é escandaloso para uns pode ser extremamente normal para outros.

Segundo a análise de Elias, o temor está no centro dessa questão do pudor: o temor de se tornar vulnerável à agressão do outro.
O homem se encontra, de certa forma, confrontado a si mesmo. Ele “dissimula suas paixões”, “desmente seu coração”, “age contra seus sentimentos”. Ele renuncia ao prazer ou à inclinação do momento, pensando no desprazer que o espera se ele acaso sucumbir à tentação.

O movimento impulsivo ou emocional do momento é de certa maneira abafado pelo medo do desprazer futuro. O próprio temor é objeto de um processo de interiorização, fixando-se nas ameaças cada vez menos exteriores e cada vez mais ancoradas no foro interior do sujeito.
Assim como a relação com o corpo, a relação com a morte é objeto de interiorização: pela dissimulação da própria morte, e pela repressão das emoções que a ela estão associadas. Não se trata, apenas, do domínio dos afetos, mas sim, da repressão, com todos os inconvenientes em que isto implica. Mozart morreu de forma rápida porque a vida já não fazia sentido para ele, motivado pelo temor e a angústia que provocavam um confronto dentro de si, Mozart permitiu que suas ameaças interiores fossem mais fortes, renunciando ao prazer de continuar vivo e encontrar forças para isto, pois, para ele, continuar vivendo seria como prolongar um sofrimento.
Elias vai aplicar aos costumes mortuários a visão na perspectiva histórica que lhe é costumeira. Ele começa refutando a tese idealista do historiador Philippe Ariès, segundo o qual, no passado, “os homens morriam em paz e na serenidade”.

O processo geral de individualização nas sociedades ocidentais afasta a relação com a morte das formalizações coletivas.

O conceito de solidão é bastante amplo. Pode se tratar de seres cujo desejo de amor pelo outro foi precocemente ferido e destruído a tal ponto que eles quase não são mais capazes de dirigi-lo mais tarde aos outros seres sem sentir os golpes que receberam outrora. Mozart era um ser extremamente só, mesmo tendo a presença de sua mulher sempre por perto e das outras pessoas, mas ele não se sentia amado por eles, esse desejo de amor foi ferido e destruído, transformando sua vida num poço de angústia e solidão.

Elias dedicou-se a explicitar os antecedentes, as condições e os efeitos deste talento fora do comum, que é o de Mozart. O primeiro desses efeitos é a angústia do gênio: o que matou Mozart aos 35 anos foi o desespero provocado pela falta de amor do público e da esposa, essencialmente.

A revolta de Mozart era contra seu pai e o príncipe-arcebispo detentor do poder, e a revolta social fazia referência à situação dos grupos burgueses que faziam parte da economia dominada pela nobreza da corte e ocupavam um lugar marginal dependente, em uma época em que a superioridade do establishment da corte era ainda bastante grande.
Mozart abriu espaço para muitos artistas, um deles foi Beethoven, quando saiu de Viena, devido à existência de conflitos, como a diferença de grandeza entre um príncipe todo-poderoso, mas incapaz de apreciar realmente a arte de seu servidor, e um servidor excepcionalmente dotado, mas mantido em uma posição subalterna. Diante disso, o artista não encontra condições para impor inovações a um universo que não se integrou, ainda, a um modelo de artista original e inovador.

Em termos sociológicos, um primeiro princípio seria o da tensão existente entre a grandeza de um artista e a pequenez de uma sociedade que não reconhece essa grandeza, o que fazia com que Mozart se sentisse superior aos aristocratas da corte, a partir da genialidade de suas obras.
Apesar do seu talento único e original, Mozart era muito humilhado pelos nobres da corte, devido a sua inferioridade diante deles, no entanto, esse era um dos principais motivos pelo qual Mozart desejava tanto o sucesso e reconhecimento, ele queria sentir-se no mesmo padrão de seus superiores.

Desde a infância, Mozart tinha insegurança no amor e isso foi alcançando proporções maiores com o passar do tempo, fazendo com que ele tentasse preencher as lacunas deixadas pelo pai, que investiu para que ele se tornasse um grande artista, não por amor a ele, mas à música e à esposa, no entanto, ambos não corresponderam a suas expectativas, fazendo com que ele se tornasse um ser amargurado e infeliz, mergulhado num poço de depressão e tristeza, tendo seu desfecho com a morte.

Norbert Elias afirmava que, diferentemente dos mapas geográficos, é preciso representar os modelos sociológicos no tempo e no espaço. Pois o tempo é, na realidade, uma dimensão essencial de seu pensamento.

Elias remete a concepção que o tempo é um fenômeno socialmente construído pelos próprios instrumentos de sua medida. Assim, “a experiência humana do que chamamos de tempo modifica-se no passado e continua em constante modificação, de maneira não histórica ou contingente, mas com estrutura, orientada, e podendo ser explicável”. Portanto, o tempo e espaço são “relações de posições” estabelecidas pela atividade humana. “Toda mudança no ‘espaço’ é uma mudança no ‘tempo’ e vice-versa. A diferença entre um e outro é que chamamos de ‘espaço’ as relações posicionadas entre acontecimentos móveis que procuramos determinar fazendo abstração de seus movimentos e mudanças efetivos, já o tempo, ao contrário, está ligado às relações posicionais no interior e no continuo evolutivo que buscamos determinar sem fazer abstração de seus movimentos e mudanças contínuas.”

A vida de Mozart ilustra nitidamente a situação de grupos burgueses outsiders, cuja economia era dominada pelos aristocratas da corte, nesse tempo em que o equilíbrio de forças eram favoráveis ao establishment cortesão.

Como um burguês outsider a serviço da corte, Mozart lutou com muita coragem para se libertar dos aristocratas, seus patronos. Fez isso com seus próprios recursos, na busca de dignidade pessoal e da sua obra musical.

Na geração de Mozart, para um músico ser socialmente reconhecido como artista sério e, possuir recursos financeiros para sustentar a família, teria que conseguir um cargo permanente numa corte, de preferência, rica. Logo, os músicos nestes grandes palácios eram indispensáveis, tanto quanto os serviçais, como os pasteleiros, os cozinheiros e os criados, eles tinham o mesmo status na hierarquia da corte.
Leopold Mozart, seu pai, era serviçal e burguês de corte. Havia educado o jovem Wolfgang Mozart musicalmente dentro do gosto cortesão. Sobre a questão musical, foi muito bem sucedido, mas quanto à idéia de fazer de Mozart um homem do mundo ele fracassou. Leopold conseguiu o oposto do que tentou ensinar ao jovem Mozart, sobre a arte da diplomacia de corte e bajulação através das rédeas adequadas.
Embora tivesse crescido à margem de uma pequena corte, e viajado de uma corte para outra, jamais adquiriu a polidez especial de cortesão, nunca se tornou um homem do mundo (termo usado naquela época que significava “ser cavalheiro” – por volta do século XVIII).
Apesar de um subordinado da corte, Mozart tinha a clara noção de seu extraordinário talento musical, levando-o a sentir-se igual ou mesmo superior a eles. Ele era um “gênio”, um ser humano excepcionalmente dotado, nascido numa sociedade que ainda não conhecia o real conceito romântico de gênio, cujo padrão social não permitia que em seu meio houvesse qualquer lugar legítimo para um artista de gênio altamente individualizado.
Ao se tornar um artista autônomo, Mozart passa da arte de artesão, cuja produção artística era encomendada por patronos específicos, para a arte de artista, nessa a produção era dirigida ao mercado anônimo a um publico de nível igual ao do artista.
A sua decisão de se tornar um artista autônomo deixando o emprego em Salzburgo significava que ele não queria mais ser empregado permanente de um patrono, e sim ganhar a vida vendendo seu talento como músico e suas obras no mercado livre. Sua decisão ocorreu numa época em que a estrutura social ainda não oferecia tal lugar para músicos ilustres. O mercado da música e suas instituições estava apenas surgindo. É importante imaginar como Mozart se sentia em Salzburgo. Seu empregador determinava quando e onde deveria fazer um concerto, e por muitas vezes o que compor. Eram os termos usuais de um contrato de trabalho.
A decisão de Mozart é uma ilustração dos problemas enfrentados por alguém que, mesmo portador de altíssimo talento, foi envolvido por este processo social não planejado. Não foi à toa que Mozart deixou um emprego de artista artesão da corte de Salzburgo para buscar a vida como artista autônomo em Viena. Mozart com certeza havia percebido, em Paris e em algumas cidades alemãs, os ventos de protestos burgueses contra os direitos de dominação dos nobres da corte. Ele pertencia a uma geração para a qual a esperança de uma saída não parecia tão vã e nem tão difícil de realizar o desejo de ganhar a vida por seus próprios méritos de músico, mesmo sem emprego fixo.
Mesmo como “artista autônomo” ele ainda dependia, como qualquer artista artesão, de um limitado círculo local de clientes.
A ópera era a obra musical mais prezada na escala de valores da sociedade da corte. Conforme essa valorização social, compor óperas tinha para Mozart o valor emocional da mais alta realização pessoal. Mas devido ao alto custo de uma ópera, está atrelada quase exclusivamente às cortes.
O ressentimento e a amargura de Mozart com os aristocratas lhe davam a entender que ele era apenas um subordinado, um provedor de entendimento. Desde cedo ele estava consciente do alto valor de sua música.
Outras pessoas, assim como Mozart, na posição de outsiders sofriam com as humilhações impostas pelos nobres da corte (establishment), e irritavam-se com elas. Mesmo diante dessas reações hostis da classe mais alta, era precisamente por eles que queria ser visto e tratado como homem de igual valor. Essa ambivalência fez com que sentisse certa antipatia por quem lhe garantia um emprego na corte. A curiosa fixação dos desejos outsiders pelo reconhecimento e aceitação do establishment faz com que tal objetivo se transforme no foco de todos os seus desejos, sua fonte de significado.
Quando Mozart decidiu largar o emprego estável em Salzburgo e confiar seu futuro às boas graças da alta sociedade vienense, ele deu um passo muito incomum para um músico de seu nível naquele tempo.
A mudança de posição social e de função dos compositores alterou também o estilo e caráter de sua música.
A teoria sociológica de Elias abrange – também de maneira inovadora – a questão do espaço relacional que define as situações dos seres em relação aos outros, em um certo momento histórico.
Beethoven nasceu quase 15 anos depois de Mozart, e foi capaz de “driblar” as imposições da época de ser em artista “livre”, mas pelo menos até certo ponto.

“Mozart sonhou em chegar aonde Beethoven triunfalmente anuncia ter chegado; e quem sabe isso tivesse acontecido, caso tivesse tido a coragem de viver mais tempo”. (ELIAS, 1995:44)

Elias teve a oportunidade de fazer uma reflexão sobre a marginalidade a partir do caso Mozart, em que um indivíduo é isolado em sua profissão por pertencer a uma origem burguesa dentro de uma corte aristocrática, mesmo possuidor de talento excepcional.
Ultrapassando a teoria Marxista, Elias mostra que a discriminação apoiada nas diferenças de recursos econômicos é apenas um caso particular e ataca a hipótese de uma causalidade baseada no primado do econômico.

“Em toda esta longa luta de classes podem se observar conflitos entre padrões diferentes, bem como uma aproximação e uma fusão entre os padrões dos grupos burgueses e nobres. Foi o solo em que se desenvolveu o absolutismo aristocrático, do mesmo modo que o absolutismo burguês e proletário de nossos dias surgiu das lutas entre estes dois estratos econômicos. Mas até agora não nos falta apenas um estudo global sobre o curso e a estrutura do longo conflito de classes entre a nobreza e a burguesia nas sociedades européias (e outras); faltam-nos, também, estudos sobre muitos aspectos individuais das tensões sociais que aqui nos interessa. A vida de Mozart ilustra um desses aspectos de maneira verdadeiramente paradigmática – o destino de um burguês a serviço da corte no final do período, quando em quase toda a Europa, o gosto da nobreza de corte estabelecia o padrão para os artistas de todas as origens sociais, acompanhando a distribuição geral de poder”. (ELIAS, 1995:17)

CONCLUSÃO

A partir de textos datilografados com títulos e etiquetas sobre Mozart mais algumas gravações em conferências, deixados por Norbert Elias, Michael Schröter pôde organizar esse material para a preparação do livro “Mozart, a sociologia de um gênio”.
Como diz o próprio Schröter, Elias delegou a ele parte de sua consciência extremamente rigorosa e a sua colaboração implicava um grau único de confiança. Por outro lado esse amigo havia imposto a si o objetivo de trazer este grande autor de seu exílio e de sua pátria lingüística, já que ambos escreveram algumas obras juntos.

Aos poucos Mozart foi se sentindo derrotado pela vida, pois, desde a infância fora-lhe imposto pelo pai a condição de artista em quem poderia realizar-se e projetar-se como um grande e brilhante músico.

“(...) Sem dúvida alguma, morreu com a sensação de que sua existência social fora um fracasso. Falando metaforicamente, morreu pela falta de significado de sua vida, por ter perdido completamente a crença de que seus desejos mais profundos seriam satisfeitos. Duas fontes de sua determinação de viver, dois mananciais que alimentavam seu sentimento de auto-estima e importância, estavam quase secos: o amor de uma mulher em quem pudesse confiar, e o amor do público vienense por sua música.” (ELIAS, 1995:09)

Mozart foi disciplinado e capacitado a trabalhar e a sua criatividade foi-se transformando em composições musicais. Pôde fazer várias viagens, apresentou-se para importantes autoridades, ganhou presentes... Mas, será que se importavam com o autor ou apenas com a sua obra? Será que se preocupavam com a sua saúde, com o seu desenvolvimento físico e emocional?
Percebe-se que não cabia a ele decidir se seus desejos seriam satisfeitos, já que o seu gosto musical, comportamento, sentimento e a sua própria imaginação eram conforme o gosto cortesão, sendo a sua liberdade suprimida de forma frustrante, enquanto ele próprio era sabedor de seu extraordinário talento.

“(...) Quase todos têm desejos claros, passíveis de ser satisfeitos; quase todos têm alguns desejos mais profundos impossíveis de ser satisfeitos, pelo menos no presente estágio de conhecimento.” (ELIAS, 1995:13)

Diante dessa trajetória, que homem estaria se formando? Mozart carecia de amor físico e emocional. Ele tinha a sensação de que ninguém o amava e talvez expressasse isso na música, nas suas composições.
Mesmo consciente de seus dons (e orgulhar-se disso), ele próprio parecia não sentir amor por si mesmo. Não tinha boa aparência, não se achava digno do amor das pessoas. Ele não sabia que a beleza está nos olhos do observador (Augusto Cury).
Sua força e sua inspiração advindas do amor de sua mulher e do público estavam esgotadas. Essa falta de amor e generosidade das pessoas aprofundou o seu sofrimento e não cabe a nós julgar o que ele esperava da vida e em que se baseavam as suas expectativas.
A solidão redobrou, tendo morte súbita após um coma de duas horas que exige mais explicações do que apenas uma causa dada pela medicina, pois sofrera pressão, traumas e o abandono e a fama póstuma não lhe importava.
Wolfang Amadeus Mozart morreu em 1791, aos 35 anos, e foi enterrado numa vala comum a 06 de dezembro.

“(...) Ao apresentar sua tragédia como tento fazer – e é apenas um exemplo de um problema mais geral –, pode ser que as pessoas se tornem mais conscientes da necessidade de se comportar com maior respeito em relação aos inovadores.” (ELIAS, 1995:19)

“... Talvez, ele tenha simplesmente desistido.”




REFERÊNCIAS
ELIAS, Norbert, Mozart – sociologia de um gênio, Rio de Janeiro, Ed: Jorge Zahar, 1995.
HEINICH, Nathalie, A sociologia de Norbert Elias, Bauru-SP, Ed: EDUSC, 2001.
LINK:
http://www.urutagua.uem.br/008/08soc_bariani.pdf
VIANA, Nildo. Indivíduo e Sociedade em Norbert Elias. Estudos/UCG (Goiânia), Goiânia, v. 28, n. 5, p. 931-946, 2001.
LINK:
http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_31/rbcs31_resenhas.htm


[1] GINZBURG, Carlo. (1989), Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. Tradução de Frederico Carotti. São Paulo, Companhia das Letras.

[2] IRLYS ALENCAR FIRMO BARREIRA é doutora em Sociologia pela USP e professora da UFC. Resenha sobre o livro Mozart, sociologia de um gênio.

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